
Pós-graduação em User Experience Design and Beyond
Arquitetura de informação para inclusão digital de idosos
2025
A rápida digitalização da sociedade transformou profundamente a forma como nos comunicamos e realizamos tarefas cotidianas, e esse avanço não ocorreu do forma inclusiva. Um dos grupos afetados é o público idoso, que enfrenta barreiras cognitivas, motoras e emocionais ao utilizar dispositivos móveis. Embora o uso de smartphones entre pessoas com mais de 60 anos esteja em crescimento, muitos ainda vivenciam dificuldades de usabilidade e exclusão digital, decorrentes de interfaces mal estruturadas e pouco acessíveis.
Diante desse cenário, o estudo investiga como a Arquitetura de Informação pode tornar as interfaces móveis mais acessíveis, intuitivas e inclusivas para idosos. O objetivo foi compreender suas principais dificuldades, mapear hábitos e percepções sobre o uso e propor caminhos de design que promovam maior autonomia digital.
Interação Humano Computador (IHC)
A IHC surge como campo de estudo voltado a qualidade de uso dos sistemas e ao impacto que exercem na vida das pessoas, considerando aspectos cognitivos e emocionais, que influenciam diretamente a experiência do usuário. Compreender essa relação exige o entendimento do contexto sociocultural e das características físicas e perceptivas que moldam a interação — como visão, audição, tato e movimento. Diante disso, a IHC propõe uma reflexão essencial: nossos produtos estão realmente sendo projetados para atender as necessidades e limitações das pessoas, ou estão reforçando barreiras que ampliam a exclusão digital?
O Design na
inclusão digital
A inclusão digital representa a promoção da igualdade de oportunidades na sociedade da informação, já a exclusão digital, é resultado de fatores sociais, políticos, econômicos e cognitivos que dificultam o acesso e o uso das tecnologias. A inclusão digital vai além do acesso físico aos dispositivos — envolve acesso ao conhecimento e engajamento no processo de aprendizagem, reforçando a importância do desenho das telas e a estruturação das páginas serem fatores determinantes para a dificuldade dos usuários inexperientes. Estudos revelam que limitações de visão, memória, medo de errar e insegurança ao utilizar aparelhos estão entre as principais dificuldades enfrentadas pelos idosos.
Arquitetura de informação e acessibilidade
O conceito de Arquitetura da Informação é definida como a organização intencional de conteúdos para facilitar o acesso e a compreensão da informação, sendo fundamental para a experiência do usuário. Os princípios da Gestalt oferecem diretrizes visuais valiosas quando o assunto é acessibilidade — como contraste, proximidade e continuidade, que aumentam a legibilidade e reduzem o esforço cognitivo. Nielsen e Loranger (2006) reforçam que uma boa experiência deve ser fácil de aprender, eficiente, tolerante a erros e agradável. Ao considerar limitações sensoriais e cognitivas, a arquitetura da informação e o design visual tornam-se ferramentas essenciais de inclusão digital.
A pesquisa se inicia compreendendo três pontos essenciais para trabalhar em cima do tema:
pesquisa de campo
A pergunta principal que norteou o estudo em campo foi:
Como a arquitetura de informação influência a experiência de pessoas idosas no uso cotidiano de dispositivos móveis, e como esse entendimento pode contribuir para o aprimoramento de produtos digitais?
A etapa inicial foi fundamentada em uma pesquisa exploratória com artigos acadêmicos recentes (2023–2024) sobre idosos e tecnologia, com o objetivo de mapear o cenário atual e identificar lacunas ainda não exploradas. A partir dessa análise teórica, foi construída uma Matriz CSD (Certezas, Suposições e Dúvidas), que guiou a formulação das perguntas do estudo e ajudou a estruturar o questionário aplicado.
Quais são as principais características de design que atrapalham no uso diário do celular?
DÚVIDAS
CERTEZAS
SUPOSIÇÕES
Os celulares são muito utilizados para comunicação, como falar com familiares e amigos.
Muitos idosos se sentem dependentes da família ou amigos para conseguir realizar atividades no celular, o que gera pressão para aprender rápido.
Para quais atividades o celular é mais usado e como isso impacta de forma positiva ou negativa a rotina dos idosos?
Há grande interesse em aprender mais a utilizar os recursos que o celular fornece, mas o medo de errar ou estragá-lo é uma grande barreira no aprendizado.
Apoio contínuo pode aumentar a confiança e diminuir a ansiedade, fazendo com que se sintam realizados ao conseguirem usar sozinhos.
Como os idosos se sentem em relação ao uso do celular no dia a dia e como garantir que a tecnologia aumente a autonomia?
Limitações visuais e motoras dificultam muito a experiência, principalmente para digitar, tocar com precisão ou ler textos pequenos.
A dificuldade em lembrar (perda de memória frequente) torna o aprendizado mais lento, gerando uma sensação de incapacidade.
O grau de escolaridade e o ambiente em que a pessoa vive influenciam no conhecimento e uso do celular?
Interfaces simples, com letras grandes e respostas claras (feedback), podem aumentar a confiança e a autonomia no uso do celular.
Foram planejadas 13 perguntas, divididas em:
Perfil socioeconômico
Idade, escolaridade, local de residência e tempo de uso do celular
Comportamento
Hábitos, frequência de uso, dependência de ajuda
Dificuldades e sentimentos
Principais dificuldades, limitações e emoções vivenciadas
Das 13 perguntas, 11 eram objetivas para facilitar a compreensão e estimular a participação, e 2 abertas, permitindo relatos espontâneos e mais profundos.
Antes da aplicação, o material foi revisado por dois profissionais da área de comunicação (um designer e um jornalista) com objetivo de validar e observar a clareza das questões.
O formulário da pesquisa foi distribuído junto a um texto explicativo para 12 canais de comunicação diferentes. Nos casos de grupos de idosos, instituições e comunidades online, houve contato prévio com os responsáveis para solicitar autorização para o compartilhamento do questionário. Para os demais grupos, o convite foi enviado diretamente as pessoas idosas ou, em alguns casos, aos seus familiares — como filhos e netos — que ajudaram a intermediar o contato e estimular a participação.
Análise dos
dados coletados
Após a coleta das respostas, iniciou-se a etapa de análise, com o objetivo de identificar padrões de comportamento e semelhanças entre os participantes. Para analisar, foi separado em 5 principais pontos:
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Dados de Comportamento
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Principais atividades
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Dificuldades de uso
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Elementos de design que atrapalha a experiência
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Percepções de Autonomia e Dependência.
dados de comportamento
Análise do uso cotidiano do dispositivo, comportamentos observados e sentimentos associados.
FAMILIARIDADE
4 dependem frequentemente de auxílio
2 pedem ajuda quando têm dúvidas
5 utilizam de forma independente
DIFICULDADE DE APRENDIZADO
27,3% esquecem com frequência
63,6% esquecem ocasionalmente
9,1% lembram com facilidade
SEGURANÇA DIGITAL
100% não se sentem seguros
54,6% têm medo de sofrer golpes
45,4% receio de "estragar" o aparelho
Os participantes que mais necessitam de ajuda são, em sua maioria, os de idade mais avançada e menor escolaridade. No entanto, as dificuldades de memória apareceram de forma ampla, independentemente de idade ou tempo de uso do dispositivo, levantando reflexões sobre como o estilo de vida e o avanço tecnológico podem impactar as capacidades cognitivas futuras.
principais atividades
Finalidades do uso do celular no cotidiano dos participantes.
COMUNICAÇÃO
Todos os participantes (100%) utilizam o aparelho para fazer ou receber ligações, e 90,9% também o usam para enviar mensagens de texto, principalmente via WhatsApp.
As chamadas de vídeo apareceram entre 60% dos participantes.
ENTRETENIMENTO E INFORMAÇÃO
Atividades de entretenimento e informação também se destacaram: 45,5% afirmaram assistir a vídeos (YouTube, TikTok) e buscar notícias, enquanto 54,5% utilizam redes sociais como Facebook e Instagram com frequência.
UTILITÁRIOS
Outras funções tiveram menor adesão, como aplicativos de saúde (36,4%), serviços bancários (27,3%) e consumo de conteúdos de lazer, como filmes e músicas (27,3%). Nenhum participante relatou usar o celular para fins de trabalho.
dificuldades de uso
Foi investigado para quais atividades os participantes relataram ter maior dificuldade, identificando os principais pontos de frustração ou barreiras enfrentadas. Em seguida, foi disponibilizado um campo aberto para que descrevessem com suas próprias palavras, os motivos pelos quais sentem dificuldade em executar determinadas ações.

As ações mais desafiadoras foram o uso de aplicativos de banco e a realização de compras online, citadas por cerca de 80% dos participantes. Essas atividades estão frequentemente associadas a preocupações com segurança, múltiplas etapas de navegação e medo de fraudes.
Agendar consultas médicas (54,5%) também se destacou como uma tarefa com alto grau de dificuldade, devido a pouca familiaridade com os sistemas utilizados e a ausência de apoio.
Tirar fotos ou gravar vídeos também apareceu como uma dificuldade significativa, cerca de 35% dos participantes selecionaram essa opção, o que chama atenção por se tratar de uma função básica e bastante presente no uso cotidiano.
Elementos de design que atrapalham a experiência
Foi disponibilizado uma listagem de opções para os participantes selecionarem o que mais sentem dificuldade.
Para a construção das opções, foi elaborado um mapa de afinidade, que agrupou os principais temas relacionados as dificuldades enfrentadas. Esse método permitiu organizar as percepções dos usuários com o uso do dispositivo facilitando a análise posterior dos dados.

Das dificuldades mais listadas, se encontra com destaque:
1
EXCESSO DE INFORMAÇÃO -COMUNICAÇÃO SEM CLAREZA
60% dos participantes votaram
"tela muito pequena"
"as letras são pequenas"
"há muita coisa na tela ao mesmo tempo"
"os ícones não mostram claramente para que servem"
2
FALHAS NA ARQUITETURA DE INFORMAÇÃO
55% dos participantes votaram
“acabo clicando sem querer em coisas erradas”
“não consigo encontrar o que procuro”
“as opções são escondidas ou difíceis de achar”
3
INSEGURANÇA - INTERFACES CONFUSAS
55% dos participantes votaram
"medo de fazer algo errado e "estragar" o celular"
PERCEPÇÕES DE AUTONOMIA E Dependência
Para finalizar, a última pergunta do formulário foi aberta e opcional, permitindo aos participantes expressarem livremente como se sentem em relação ao uso da tecnologia no cotidiano, especialmente no que diz respeito a sua autonomia.
Oito participantes responderam a essa questão, oferecendo diferentes percepções que complementam os dados anteriores da pesquisa:
Três deles (participantes 3, 10, 11) mencionaram diretamente se sentirem “dependentes dos outros”, sem mais complementos, o que denota uma sensação de frustração frente as dificuldades de uso.
análise do caso e CONCLUSÃO
A análise do caso demonstra que a autonomia digital de pessoas idosas está diretamente relacionada à forma como as interfaces são estruturadas e comunicadas. Mais do que acesso à tecnologia, fatores como clareza, previsibilidade e redução da carga cognitiva influenciam a sensação de segurança, confiança e independência durante o uso. Nesse contexto, a Arquitetura de Informação e o Design Centrado no Usuário assumem papel estratégico na construção de experiências digitais mais inclusivas, mais que uma ferramenta, é estratégia central para promover inclusão e diminuir desigualdades digitais.
Caminhos de design para promover maior autonomia digital
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Redução da densidade informacional, evitando excesso de elementos simultâneos e sobrecarga cognitiva.
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Estruturação de fluxos claros, visíveis e previsíveis, eliminando menus ocultos e ícones ambíguos.
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Organização lógica e hierárquica da informação, facilitando a compreensão e a tomada de decisão.
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Uso consistente de feedback visual e sonoro, reforçando a sensação de controle e segurança.
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Aplicação de princípios gestálticos para melhorar leitura, reconhecimento de padrões e navegação intuitiva.
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Layouts limpos, com agrupamentos coerentes, uso estratégico de cores e tipografia legível.
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Dimensionamento adequado de elementos interativos, com botões maiores e áreas de toque acessíveis.
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Linguagem simples, direta e sem ambiguidades, reduzindo ansiedade e interpretações equivocadas.
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Consistência visual e funcional entre telas, permitindo antecipação de resultados.
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Validação contínua com usuários reais, garantindo eficiência.
Conclui-se que a autonomia digital de idosos é construída a partir de decisões conscientes de arquitetura da informação e design centrado no usuário. Projetar com foco em clareza, simplicidade, previsibilidade e acessibilidade cognitiva não apenas melhora a usabilidade, mas promove inclusão, confiança e participação ativa no ambiente digital.
