
Pós-graduação em User Experience Design and Beyond
Arquitetura de informação para inclusão digital de idosos
2025
01. INTRODUÇÃO
A rápida digitalização da sociedade transformou profundamente a forma como nos comunicamos e realizamos tarefas cotidianas, e esse avanço não ocorreu do forma inclusiva. Um dos grupos afetados é o público idoso, que enfrenta barreiras cognitivas, motoras e emocionais ao utilizar dispositivos móveis. Embora o uso de smartphones entre pessoas com mais de 60 anos esteja em crescimento, muitos ainda vivenciam dificuldades de usabilidade e exclusão digital, decorrentes de interfaces mal estruturadas e pouco acessíveis.
Diante desse cenário, o estudo investiga:
Como a Arquitetura de Informação pode tornar as interfaces móveis
mais acessíveis, intuitivas e inclusivas para o público idoso.
02. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Três pilares sustentam o estudo:
01 INTERAÇÃO HUMANO-COMPUTADOR
A IHC estuda a qualidade do uso dos sistemas e o impacto que exercem na vida das pessoas, considerando aspectos cognitivos e emocionais. Compreender essa relação exige entender o contexto sociocultural e as características físicas que mudam a interação: visão, audição, tato e movimento. A IHC propõe uma reflexão essencial: nossos produtos estão realmente sendo projetados para as necessidades das pessoas?
02 O DESIGN NA
INCLUSÃO DIGITAL
A inclusão digital representa a promoção da igualdade de oportunidades na sociedade da informação. A exclusão é resultado de fatores sociais, políticos, econômicos e cognitivos que dificultam o acesso e o uso da tecnologia. A inclusão vai além do acesso ao dispositivo, envolve acesso ao conhecimento e engajamento na aprendizagem. O desenho das telas e a estruturação das páginas são determinantes para usuários inexperientes.
03 ARQUITETURA DE INFORMAÇÃO E ACESSIBILIDADE
A Arquitetura de Informação é a organização intencional do conteúdo para facilitar o acesso e a compreensão. Os princípios da Gestalt oferecem diretrizes visuais valiosas quando o assunto é acessibilidade — como contraste, proximidade e continuidade. Nielsen e Loranger (2006) reforçam que uma boa experiência deve ser fácil de aprender, eficiente, tolerante a erros e agradável.
Pesquisa & Dados
Pesquisa
Como a arquitetura de informação influência
a experiência de pessoas idosas no uso cotidiano de dispositivos móveis, e como esse entendimento pode contribuir para o aprimoramento de produtos digitais?
PERGUNTA PRINCIPAL QUE NORTEOU O ESTUDO EM CAMPO:
03. PESQUISA DE CAMPO
A etapa inicial foi fundamentada em uma pesquisa exploratória com artigos acadêmicos recentes (2023–2024) sobre idosos e tecnologia, com o objetivo de mapear o cenário atual e identificar lacunas ainda não exploradas. A partir dessa análise teórica, foi construída uma Matriz CSD (Certezas, Suposições e Dúvidas), que guiou a formulação das perguntas do estudo e ajudou a estruturar o questionário aplicado.
Matriz CSD
Quais são as principais características de design que atrapalham no uso diário do celular?
DÚVIDAS
CERTEZAS
SUPOSIÇÕES
Os celulares são muito utilizados para comunicação, como falar com familiares e amigos.
Muitos idosos se sentem dependentes da família ou amigos para conseguir realizar atividades no celular, o que gera pressão para aprender rápido.
Para quais atividades o celular é mais usado e como isso impacta de forma positiva ou negativa a rotina dos idosos?
Há grande interesse em aprender a utilizar os recursos que o celular fornece, mas o medo de errar ou estragá-lo é uma grande barreira.
Apoio contínuo pode aumentar a confiança e diminuir a ansiedade, fazendo com que se sintam realizados ao conseguirem usar sozinhos.
Como os idosos se sentem em relação ao uso do celular no dia a dia e como garantir que a tecnologia aumente a autonomia?
Limitações visuais e motoras dificultam muito a experiência, principalmente para digitar, tocar com precisão ou ler textos pequenos.
A dificuldade em lembrar (perda de memória frequente) torna o aprendizado mais lento, gerando uma sensação de incapacidade.
O grau de escolaridade e o ambiente em que a pessoa vive influenciam no conhecimento e uso do celular?
Interfaces simples, com letras grandes e respostas claras (feedback), podem aumentar a confiança e a autonomia.
Pesquisa com usuários
Três frentes foram pensadas para entender o usuário:
01 PERFIL SOCIOECONÔMICO
Idade, escolaridade, local de residência e tempo de uso
02 COMPORTAMENTO
Hábitos, frequência de uso, dependência de ajuda
03 DIFICULDADES E PERCEPÇÕES
Principais dificuldades, limitações e emoções vivenciadas
Das 13 perguntas disponibilizadas no formulário, 11 eram objetivas para facilitar a compreensão e estimular a participação, e 2 abertas, permitindo relatos espontâneos e mais profundos.
Antes da aplicação, o material foi revisado por dois profissionais, um designer e um jornalista, com o objetivo de validar a clareza das questões.
O formulário foi distribuído junto a um texto explicativo por 12 canais de comunicação diferentes.
Nos grupos de idosos, instituições e comunidades online, houve contato prévio com os responsáveis para solicitar autorização e para os demais, o convite foi enviado diretamente as pessoas idosas ou aos seus familiares — como filhos e netos — que ajudaram a intermediar o contato e estimular a participação.
11
PARTICIPANTES
7 mulheres . 4 homens
65%
ESCOLARIDADE
tem o ensino fundamental incompleto. 35% médio ou superior completo
75%
AMBIENTE
vivem em áreas urbanas e 25% em zona rural
5+
TEMPO DE USO
Mais de 5 anos utilizando smartphones
Análise de dados
Análise
04. ANÁLISE DOS DADOS COLETADOS
01 Dados de comportamento
02 Principais atividades
03 Dificuldades de uso
04 Elementos de design que atrapalham a experiência
05 Percepções de autonomia e dependência
4.1 DADOS DE COMPORTAMENTO
Análise do uso cotidiano do dispositivo, comportamentos observados e sentimentos associados
FAMILIARIDADE
4
dependem frequentemente de auxílio.
2
pedem ajuda quando têm dúvidas
5
utilizam de forma independente
DIFICULDADE DE APRENDIZADO
27,3%
Esquecem o que aprenderam com frequência
63,6%
Esquecem ocasionalmente
9,1%
Lembram com facilidade
SEGURANÇA DIGITAL
100%
Não se sentem seguros
54,6%
Têm medo de sofrer golpes
45,4%
Receio de "estragar" o aparelho
Os participantes que mais necessitam de ajuda são, em sua maioria, os de idade mais avançada e menor escolaridade. No entanto, as dificuldades de memória apareceram de forma ampla, independentemente de idade ou tempo de uso do dispositivo, levantando reflexões sobre como o estilo de vida e o avanço tecnológico podem impactar as capacidades cognitivas futuras.
4.2 PRINCIPAIS ATIVIDADES
Finalidade do uso do celular no cotidiano dos participantes
COMUNICAÇÃO
100% utilizam o aparelho para ligações, e 90,9% para mensagens via WhatsApp. As chamadas de vídeo aparecem entre 60% dos participantes.
ENTRETENIMENTO E INFORMAÇÃO
45,5% afirmaram assistir a vídeos (YouTube, TikTok) e buscar notícias, enquanto 54,5% utilizam redes sociais como Facebook e Instagram com frequência.
UTILITÁRIOS
Aplicativos de saúde (36,4%), serviços bancários (27,3%) e consumo de conteúdos de lazer, como filmes e músicas (27,3%). Nenhum relatou para trabalho.
4.3 DIFICULDADES DE USO
Atividades onde os participantes relataram ter maior dificuldades, frustrações e barreiras
Foi disponibilizado na pesquisa um campo aberto para que descrevessem com suas próprias palavras, os motivos pelos quais sentem dificuldade em executar determinadas ações.

Análise temática
As ações mais desafiadoras foram o uso de aplicativos de banco e a realização de compras online, citadas por cerca de 80% dos participantes. Essas atividades estão frequentemente associadas a preocupações com segurança, múltiplas etapas de navegação e medo de fraudes.
Agendar consultas médicas (54,5%) também se destacou como uma tarefa com alto grau de dificuldade, devido a pouca familiaridade com os sistemas utilizados e a ausência de apoio.
Tirar fotos ou gravar vídeos também apareceu como uma dificuldade significativa, cerca de 35% dos participantes selecionaram essa opção, o que chama atenção por se tratar de uma função básica e bastante presente no uso cotidiano.
4.4 ELEMENTOS DE DESIGN QUE ATRAPALHAM A EXPERIÊNCIA
Dificuldades enfrentadas por problemas de acessibilidade, usabilidade e hierarquia
Foi disponibilizado uma listagem de opções para os participantes selecionarem o que mais sentem dificuldade. Para a construção das opções, foi elaborado um mapa de afinidade, que agrupou os principais temas relacionados as dificuldades enfrentadas. Esse método permitiu organizar as percepções dos usuários com o uso do dispositivo facilitando a análise posterior dos dados.
Mapa de afinidade

Das opções, três se destacam:
01
Excesso de informação - Comunicação sem clareza
60% DOS PARTICIPANTES
"tela muito pequena"
"as letras são pequenas"
"há muita coisa na tela ao mesmo tempo"
"os ícones não mostram claramente para que servem"
02
Falhas de arquitetura de informação
55% DOS PARTICIPANTES
“acabo clicando sem querer em coisas erradas”
“não consigo encontrar o que procuro”
“as opções são escondidas ou difíceis de achar”
03
Insegurança - Interfaces confusas
55% DOS PARTICIPANTES
"medo de fazer algo errado e "estragar" o celular"
4.5 PERCEPÇÕES DE AUTONOMIA E DEPENDÊNCIA
Como os idosos se sentem em relação a tecnologia
Para finalizar, a última pergunta do formulário foi aberta e opcional, permitindo aos participantes expressarem livremente como se sentem em relação ao uso da tecnologia no cotidiano, especialmente no que diz respeito a sua autonomia.
Oito participantes responderam a essa questão, oferecendo diferentes percepções que complementam os dados anteriores da pesquisa:
Ajuda no meu dia a dia. Agora posso fazer as coisas de casa, falar com meu filho que mora longe, mexer nas redes sociais, gosto muito.
PARTICIPANTE 04
Facilita e muito as atividades e traz um pouco de conforto em algumas situações, como serviços de banco, pagamento de contas. Gosto de me distrair com os jogos.
PARTICIPANTE 01
Ela ajuda muito e é muito legal aprender coisas novas.
PARTICIPANTE 09
Facilita em algumas atividades [...], mas as vezes fico dependente dos meus netos para fazer algumas coisas.
PARTICIPANTE 07
Facilita em algumas atividades, gosto muito de me comunicar pelas redes, falar com minhas amigas.
PARTICIPANTE 06
Três participantes (3, 10, 11) mencionaram diretamente se sentirem “dependentes dos outros”, sem mais complementos, o que denota uma sensação de frustração frente as dificuldades de uso.
Caminhos de Design
Conclusão
05. ANÁLISE DO CASO E CONCLUSÃO
A autonomia digital é construída a partir de decisões conscientes de arquitetura de informação e design centrado no usuário.
Pequenos ajustes como layouts mais claros, fluxos previsíveis e redução de carga cognitiva influenciam diretamente a sensação de domínio, confiança e autonomia no uso da tecnologia.
Arquitetura de Informação e Design Centrado no Usuário, associados, oferecem rotas concretas para experiências digitais mais inclusivas, como estratégia central para promover inclusão e diminuir a desigualdade digital.
Caminhos de design para
promover maior autonomia digital
01
Redução de bloqueios informacionais, evitando excessos de elementos simultâneos e sobrecarga cognitiva.
02
Estruturação de fluxos claros, lineares e previsíveis, eliminando menus ocultos e ações repetidas.
03
Organização lógica e hierárquica da informação, facilitando a compreensão e a tomada de decisão.
04
Uso consistente de feedback visual e sonoro, reforçando a sensação de controle e segurança.
05
Aplicação de princípios gestálticos para melhorar leitura, reconhecimento de padrões e navegação intuitiva.
06
Layouts limpos, com agrupamentos coerentes, uso estratégico de cores e tipografia legível.
07
Dimensionamento adequado de elementos interativos, com botões maiores e áreas de toque ampliadas.
08
Linguagem simples, direta e amigável, evitando interpretações equivocadas.
09
Consistência visual e funcional entre telas, permitindo antecipação de comportamento e resultado.
10
Validação contínua com usuários reais, garantindo eficácia.
A autonomia digital de idosos é construída a partir de decisões conscientes de arquitetura da informação e design centrado no usuário. Projetar com foco em clareza, simplicidade, previsibilidade e acessibilidade cognitiva não apenas melhora a usabilidade, mas promove inclusão, confiança e participação ativa no ambiente digital.
